24.12.09

Porque é preciso amar

Nos gestos, nas cores, nos traços, nos cortes de cabelo, o meu amor é plural. Nas manias, nas angústias, nos risos, nas frases de efeito, eu amo desse jeito, todo o jeito das gentes todas. Eu amo o amigo e a fatilidade sincera e carinhosa dos encontros semanais, eu amo os dias programadamente iguais que nós fazemos questão de viver, amo assim, rindo do tédio, mas riso junto. E há amor também nas rotas aéreas, nas estradas cansadas, que se alargam e se encurtam; amo a ciranda das mudanças, o tempo e espaço não mais condensados, não mais trocas de roupas e receitas, e novamente tendo o peito aberto, amo todos os meus amores. Amo sobretudo essa distância que arrisca derrubar, sacode, mas só deixa claro que nem água límpida e cristalina, esse amor-amigo que a gente sente, eu sinto assim, nem me pregunte como. E nos dias mundanos, os porres e as promessas, é nesses dias que a gente quer escrever nas paredes isso que a gente sente.
É simplesmente amor o que sinto quando olho no olho desses meus companheiros e vejo aquele sorriso presenteado, sorriso de olho é duas vezes sorriso, amo o olho do amigo. Estar junto é essa dança de carinho, esse baile real e nostálgico, esse presente de vida, às vezes presente silencioso, mas sincero. Às vezes, é carnaval maravilhoso de troças frevando versos de amor, essa coisa toda de cores que a gente chama amizade, é nesse maracatu que a gente é rei e rainha, e é calunga e é dama, a gente é gente que se aperta pra gritar o melhor hino, a gente se espera e se entende, ameaça cair, mas o cordão segura, segura, pois a gente é de baque-virado, e eu quero esse amor de ano novo e carnaval e dia de reis pra sempre.



Amo vocês, meus amigos!

4.11.09

estrada

Ele vem no galope da estrada cansada de poeira e vento. A donzela de saia e sianinha espera, colorindo cada canto do mundo com o amor. Ela aprendeu a saborear os minutos da calma, cantou sozinha tercetos de belas palavras, esteve presente na dor da solidão. Agora o moço vem para encantar os beijos de auroras boreais, galopando ligeira a espera veste o seu melhor vestido de dia. A moça viveu 7 eras contemplando pássaros e sinos que badalavam, os sons vindos do sul, as luzes avisavam a vinda do cavaleiro sem cavalos. Das trilhas da caatinga até as águas salgadas do mar, distâncias e moinhos de vento singram versos ao amor. A moça, o moço, cada qual caminha um passo para o encontro no alto das estrelas. E se são cadentes, fazem pedidos, sonham com a brisa leve ao pé do mar; pedem mais dias de esperança, não mais de espera.

22.10.09

sexta da paixão

Havia amores de gente que não conhecia. Ela corria sem saber aonde iam dar seus pés, ruas mais adiante. O futuro a Deus pertence, dizia sua avó, uma velhinha de olhos tristes e sorriso tímido. Dona Miúda lavava roupa, apesar de sua idade avançada, pois precisava encaminhar os netos, era assim que ela se referia a esse ato de heroísmo não ousado pelas mulheres-maravilha da tv. Sininha era menina com os pés na terra, tinha infância de gente humilde, infância largada, cheia de sonhos e de uma realidade do tamanho do bicho-papão que vez ou outra lhe acordava em saltos. Tinha cabelos de mola, vestia às sextas o mesmo vestido surrado de bolinhas, embora as meninas de sua época já não vestissem mais vestidos, era coisa de menina sem estilo... Sininha nem sabia o que era estilo, sabia o que era dia de sol pra correr leve e cair pesada nas águas do rio que beirava o mundaréu. Dona Miúda dizia pra neta não ir tão longe, aquilo era terra de ninguém, só se via mato e firmamento pra todo lado que se olhava. E aquela construção não era lugar pra criança, dizia a avó com um tom quase nunca usado. Sininha ia com outros meninos ligeiros, brincavam até a pele pedir socorro. Sempre voltavam com os olhos baixos e a cabeça livre. Na volta desse passeio, resolveram ver o que havia por trás daquela construção abandonada, área temida até pelos meninos que vestiam capas vermelhas e botas de saco plástico. Sininha resolveu acompanhar os demais, quando ouviram um estopim que vinha de algum lugar depois de lá. Correram, mas Sininha ficou, não conseguiu correr, ouviu um grito de mulher, quis ver o que era. Por trás da construção, um vestido estirado ao chão, não era de bolinhas, mas de manchas vermelhas. Era sexta-feira. A mulher agonizava dizendo que era pelas mãos do amor que morria, Sininha correu. E de tanto correr, cresceu. e nunca mais pôs vestidos.

20.10.09

Pense nisso

sujeira
sem eira
calçando borrachas
apaga as pisadas
chão de giz
rugas
vincos
avesso
sem verso
só desgraça
só ver
não comer
sentir com pés
amar só
o dia
amargo dia
- um real aí?

12.10.09

Sem rima, mas verso

Tem dias que invento riscos e jeitos de dizer o que vem à superfície. Há uma respiração angustiante em meus poros, na pele o puro veludo, espinhando em certo ponto. E me fogem as sílabas, desencontro o fluxo desse riberão de alma, procuro uma gota, a seca dos verbos, a difícil arte de sentir sem falar, o suor me falta... Triste sina de quem verte em versos o som-silêncio das paredes internas, a enxurrada de sangue e poeira que lava cada parte; mas na face somente um canto de insensatez, um gesto sub-atômico, a garganta seca. Há tempos em que transpiro as cidades, os moinhos e as ondas, sou só festejos. Um carnaval com damas do passo e calungas, o ritmo fervilhante dos meus tambores, a minha fantasia mais encantada, sou da rua. E de tantas faces, me transfiguro e me enobreço, há em mim água e barro, a dança dos tempos. E me vou moldando e desenhando na carne o nome da rosa e do corte, a cada letra grito meu signo, sigo solitária na rima e nesse caminho.

4.10.09

dura doce

*

essas pedras, mármores, alfenins
só não dissolvem à boca
contraditórias imagens
sinto o frio da pedra
um doce cheiro
dura e mole
imagens confusas
o paradoxo dos sentidos

*

26.9.09

Enquete

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se as cores estão nas paredes,
tiraram férias dos lápis?

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